CSF – CULTURA SEM FRESCURA – Imã de Geladeira, curta em exibição no 7º EGBÉ, é cinema genuinamente sergipano e necessariamente preto

Este AndersonsBlog não tem nenhum problema em admitir suas miseráveis ignorâncias. Até pelo fato de que nenhuma ignorância pode ser antecipadamente condenada, mas desde que o ignorante em questão tenha sincera disposição em solucionar a sua falta de conhecimento. Simples assim, né? Pois bem, vamos a admissão, sem papas na língua, da culpa: AndersonsBlog admite que não sabia da existência da EGBÉ, Mostra de Cinema Negro de Sergipe. E admite também: morre de vergonha disso por conta da mostra já estar em sua 7ª edição neste ano da graça de 22! Ao final e ao cabo, e resumindo ao máximo, a EGBÉ se guia pela fantástica ideia de dar visibilidade à produção audiovisual realizada por pretos e pretas do país e, desde 20, com pandemia e tudo, de todo o planeta, já que também está disponível de forma on-line (entenda como e cadastre-se aqui). Mas a verdade é que a EGBÉ e seu necessário ativismo pode e deve ser assunto para uma outra edição da coluna CSF. Isso porque, nesta aqui, o assunto será mesmo o curta-metragem Imã de Geladeira, disponível pra todo mundo na atual edição da EGBÉ a partir do cadastramento sugerido logo acima. Então, vamos lá?

Ideia original realmente original

A roteirista e diretora Carolen Meneses foi muito feliz em sua concepção original: Imã de Geladeira – e AndersonsBlog evitará spoilers justamente para atiçar a sua curiosidade, leitor e leitora – bebe na fonte de clássicos da cinematografia mundial, a exemplo de Poltergeist, cuja versão original, de 1982, a cargo do fodástico Steven Spilberg, segue como uma referência fundamental em relação a filmes de terror. Mas, sábia e espertamente, Carolen transfere da TV, como foi em Poltergeist, para uma geladeira a sacada de potencializar o medo do telespectador através de coisas cotidianas, presentes na vida de todo mundo, ora pois!

Crítica social com conhecimento de causa

Mas uma geladeira, algo tão útil quanto imóvel em qualquer casa? Sim! Senão, vejamos: em tempos de crise econômica, o que melhor representa a luta diária de quem trabalha para garantir o sustento familiar? Geladeira cheia é fartura e realização. Geladeira vazia é dificuldade e resiliência, né isso? Então a escolha de Carolen foi exata e oportuna, sem mais!

Ambiência, acompanhamento narrativo e sensualização

Outro ponto a favor de Imã de Geladeira: o bairro Roza Elze, misto de lugar são-cristovense e aracajuano. Periferia na veia! E que dialoga com a moçada que executou o curta. Mais um outro ponto para Imã de Geladeira: a narrativa conduzida pelas locuções radiofônicas. Mesmo em tempos internéticos, e inclusive com a ajuda destes, a radiofonia é paramétrica eficiente para dar concretude a qualquer narrativa que tenha o povo, tenha gente de verdade como referência. E, finalmente, a sensualização presente em Imã de Geladeira dialoga diretamente com a sexualizaçao gratuita tão em voga nesses mesmos tempos internéticos, especialmente em relação aos corpos de pretos e pretas, como sensivelmente captou o diretor da película, Sidjonathas Araújo.

Recursos técnicos utilizados criativamente

Aliás, Sidjonathas Araújo, cuja direção contou com a parceria de Carolen Meneses, merece destaque pelas escolhas acertadas demais em cada angulação de câmera. O danado é de uma sensibilidade estética rara, daquelas que têm potencial visual-narrativo suficiente para enriquecer qualquer que seja a narrativa contada e filmada. Muito massa! E lá nos créditos, eis que AndersonsBlog vê o nome de Marlon Delano, cineasta itabaianense responsável pelos efeitos especiais do filme. Olha só, leitor e leitora: mesmo já tendo trabalhado com Marlon, AndersonsBlog não o conhece pessoalmente. Mas isso não impede um vaticínio: Marlon Delano é um dos caras mais PHoda, com PHs maiúsculos mesmo, que o titular deste blog já viu em ação, cinematograficamente falando.

Resumão do AndersonsBlog

Antes de mais nada: viva o EGBÉ! Viva a produção cinematográfica sergipana! Viva os pretos e pretas sergipanamente senhores e senhoras de seus trabalhos autorais! E obrigado ao cânone Severo D’Acelino, que em nobilíssima companhia, abrilhantou com sua atuação Imã de Geladeira. Top demais!

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