Aderbal Prata e o adeus ao homem que batizou uma das mais ferrenhas tradições lagartenses: Saramandaia e Bole-bole

Antes de tudo, um alerta de spoiler: ainda que a centralidade com que AndersonsBlog se expressa sempre seja absolutamente normal em um site de opinião, desta feita essa centralidade tem uma abrangência muito mais ampla, visto que, nas linhas a seguir, o leitor e a leitora irão se deparar com uma vivência familiar e pessoal, profunda e sentimental. Dito isto, vamos ao que interessa. Corria o ano de 1976, ano de eleição para prefeito, inclusive em Lagarto. A contenda na cidade naquele ano antagonizava Zé Vieira e Porfirinho, sendo que o primeiro venceu e governou o município até 1982. Apesar de adversários, os dois representavam grupos opositores, claro, mas com extrema similaridade no ideário político-ideológico. Porfirinho era do grupo liderado pelo experiente Dionísio Machado e Zé Vieira era liderado pelo jovem líder Ribeirinho. E em plena ditadura, partidos políticos muito pouco, ou quase nada, alcançavam o imaginário da população, ainda que, naqueles tempos, existissem, oficialmente, a Arena e o MDB. Então era um lado contra o outro e vice-versa, sem tergiversar. Mas 1976 foi marcado também por uma embrionária manifestação midiática, a novela Saramandaia, um sucesso retumbante. Transmitida pela Rede Globo no horário proibitivo das 22h, a obra de Dias Gomes antagonizava e dividia os cidadãos da fictícia cidade de Bole-bole entre os que lutavam para mudar o nome do município para Saramandaia e os que resistiam a essa mudança. E, para contextualizar, um aparelho de TV, ou mesmo uma transmissão minimamente digna, eram artefatos de luxo que só as famílias mais abastadas da época tinham acesso. Assim, chegamos finalmente aos finalmentes. Na casa de José Marcelino Filho e de Josefa da Fonseca Prata, a dona Zezita, esses mimos primorosos daqueles tempos eram efetivos e acessíveis. Embora não fosse uma família rica e poderosa, na acepção do que se convencionava como riqueza e poder político naquela época, era, sim, uma família abastada e capaz de garantir a todos os seus rebentos essas maravilhas tecnológicas de então. E aqui é que entra a figura essencial desse texto: José Aderbal da Fonseca Prata; ou Aderbal de Zé Marcelino; ou Aderbal da Funerária; ou simplesmente Bebal. Primogênito dos nove filhos de Zé Marcelino e dona Zezita, sendo o derradeiro deles tendo sido adotado e devidamente amado e respeitado, Aderbal foi esteio e contradição, a um só tempo. Sim, porque qual é a família que não se contradiz e qual é a família que não se une em instantes-chave? Aderbal, portanto, fez o que lhe era compatível pela sua condição de filho mais velho. Aí ocorrem os entraves, as disputas internas, as coisas que só quem tem família pode entender. Só que Aderbal, um amante do tempo a todos nós reservado, aquele negocinho chamado vida, não se amiudou e fez o que achava que seria o correto a fazer. Dessa forma, quebrando padrões, pode ter ferido alguns corações. Mas, ao final e ao cabo, teve e criou filhos e filhas fantasticamente do bem. E é nesse ponto que AndersonsBlog faz questão de retornar a 1976 e aquilo que, até então, era uma coisa interna, familiar. Aderbal sempre se vangloriou de ter batizado, ou no mínimo, apelidado os dois grupos antagônicos da política lagartenses como Saramandaia e Bole-bole, logicamente baseado na disputa que ocorria concomitantemente na obra televisiva. Lógico que todo mundo tratava essa história meio como uma piada, mas AndersonsBlog tomou pra si uma missão: passar a limpo e tentar descobrir se Aderbal, afinal, estava falando a verdade. A obra mais completa sobre o tema, sobre essa disputa político-televisiva tão lagartense, seguramente é Uma Cidade em Pé de Guerra, organizada pelo historiador Claudefranklin Monteiro, e que reúne três monografias sobre o folclórico embate Saramandaia X Bole-bole feitas por Alailson Modesto, Patrícia Monteiro e Raylane Santos. Em nenhuma delas há citação a história de Aderbal. Mas em conversa com o próprio Claudefranklin, ficou mais do que claro para AndersonsBlog que, sim, Aderbal Prata tinha razão. É que quem o conheceu sabe o quanto ele era curtidor, bonachão mesmo. Gostava de uma mangação como poucos. E, na época um jovem de 26, 27 anos, além de votar, não deixaria passar batido uma disputa em que o quase vizinho de parede de seus pais, o velho líder Dionísio Machado, era uma das figuras centrais, apoiando Porfirinho que, por sua vez, era o candidato de Aderbal. Assim, vamos ao que dizia o próprio Aderbal: “nossa turma era da pesada, a gente subia no fundo daquelas caminhonetes C10 e saia por aí pedindo voto pra Porfirinho. Aí foi quando eu lembrei um dia da novela e, quando passamos por uma turma que votava em Zé Vieira, eu grite. ‘Sai daí, ruma de Bole-bole. Quem vai ganhar é o Saramandaia’. Quase teve briga, mas naquele tempo não era nada resolvido na bala, não. Uns empurrões daqui, uns dali e nada mais. E foi aí que começou essa coisa de Saramandaia e Bole-bole”. Ainda da conversa com Claudefranklin, mais uma prova de que Aderbal estava certo. Segundo o historiador, os líderes já falecidos dos dois agrupamentos, Artur Reis e Ribeirinho, tomavam pra si a criação desses grupos. Mas, convenhamos, como é que dois adversários ferrenhos iriam sentar a mesa e dizer: eu sou Bole-bole e você é Saramandaia? Impossível, né não? E ainda tem mais: Artur disputou a sua primeira eleição para prefeito em 1982, justamente contra Ribeirinho, quando saiu vencedor. Mas a história de Aderbal sobre o batismo dos dois grupos remonta a 1976! Percebe, leitor e leitora, como tudo se encaixa e a versão de Aderbal ganha peso e consistência? E porque AndersonsBlog está dividindo essa história com você? Simples: Aderbal é irmão mais velho do pai deste jornalista, Aderaldo. E faleceu no último sábado, 5, vítima de um infarto fulminante, no alto dos seus 73 anos muito bem vividos. Aí a consciência pesou: porque AndersonsBlog não esmiuçou essa história toda com ele em vida? Pois é, meu tio, ainda que tardiamente, a história lhe faz justiça. Afinal, foi Aderbal Prata que batizou os dois principais grupos políticos de Lagarto como Saramandaia e Bole-bole. E ponto!

Missa de 7º Dia em sufrágio da Alma de José Aderbal da Fonseca Prata

Dia: sexta-feira, 11 de março

Horário: 19h

Local: Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, Lagarto/Sergipe

2 Comentários

  • Nildo Santos

    11 de março de 2022 - 15:07

    Show…não tinha idéia. sabia que existia algo pelo folhetim da Globo, mas não a conjectura

  • ANSELMO VITAL

    11 de março de 2022 - 16:04

    Palmas pro texto e pelo cuidado com a memória.

Deixe um Comentário